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Alta no preço da cesta básica

Por Luiz Filho

Aquilo que os olhos e o bolso já desconfiavam, foi comprovada pela Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o preço do grupo de alimentos necessários para as refeições de uma pessoa adulta, de acordo com o Decreto-lei 399/1938 aumentou em todas as capitais 2020.

As maiores altas foram registradas em Salvador com 32,89% e Aracajú com 28,75%. Já o menor aumento, foi registrado em Curitiba, com a elevação de 17,76%, porém ainda assim considerado um grande aumento.

A alta da cesta básica reflete diretamente no salário mínimo. Por exemplo, de acordo com a Dieese, levando em consideração um trabalhador que recebe um salário mínimo e trabalha 220 horas por mês, é necessário trabalhar exatamente 115 horas e oito minutos por mês, para comprar uma cesta básica.

Neste cenário, comparado o custo da cesta ao salário mínimo líquido, já com os descontos da previdência social, que em março de 2020 teve um reajuste de 7,5%, o trabalhador precisou comprometer 56,57% do salário, para poder adquirir os produtos da cesta básica, para uma só pessoa adulta.

Outra estimativa da Dieese apontou que, baseado no preço da cesta básica de São Paulo em dezembro, o salário mínimo deveria ser de R$ 5.304,90, isso representa 5,08% a mais do valor vigente atualmente. A estimativa do departamento, leva em consideração uma família de quatro pessoas, com dois adultos e duas crianças.

Em Palmas, o órgão responsável por fazer a pesquisa de preços e monitoramento é o Procon Tocantins. Semanalmente o órgão divulga um balanço de valores dos principais produtos da cesta básica, que inclui desde alimentos perecíveis, leguminosas, carnes e utensílios de higiene pessoal e de limpeza.

Um comparativo realizado pela Revista PMW Digital, de acordo com dados divulgados pelo Procon Tocantins, apontou alta em diversos produtos. O pacote de arroz tipo 1 de 5kg, por exemplo, teve um aumento de 73% comparando dezembro de 2019 e o mesmo período de 2020.  Já em janeiro de 2021, entre os dias 04 e 05, o preço do arroz chegou a R$ 28,99.

Para a professora Maria da Sousa Conceição, fazer pesquisa de preço não vale mais a pena. “Antes fazia pesquisa de preços de cada produto que tinha interesse em comprar, agora já não faço mais, pois o gasto que tenho com o transporte de um supermercado ao outro, é às vezes maior que a diferença de preço de um saco de macarrão. Ainda mais aqui em Palmas, que os supermercados ficam um extremo do outro. Atualmente eu vejo qual mercado tem a grande maioria de produtos com preços mais baixos e aí compro todos no mesmo lugar”.

Outros produtos que tiveram aumentos significativos, se comparados entre janeiro de 2020 e janeiro de 2021, a farinha teve um aumento de 41%, o leite integral de 1 litro aumentou 40%. A banana nanica teve um aumento de 62% no preço do quilo, já o tomate 60% de aumento. A carne do tipo colchão mole, a mais comum e acessível para os cortes do tipo bife, teve um aumento de 28%, enquanto o frango inteiro congelado aumentou 35%.

Ainda de acordo com a professora, está cada vez mais inviável fazer compra de mês como fazia há dois anos. “Antes, há uns dois anos, eu ia ao mercado e já fazia a compra do mês todo, hoje em dia não dá mais. A quantidade de produtos que compro hoje em dia, já não dá mais para o mês todo e ao mesmo tempo o valor gasto é igual ou por vezes maior. Não tem mais a opção de levar algo considerado supérfluo, é só o necessário mesmo. Os preços dos produtos sobem, mas o do salário não sobe junto. Às vezes você tem que escolher entre levar uma caixa de bombom para os filhos ou comprar um pacote de café. É triste!”.

De acordo com a Dieese o aumento é reflexo principalmente causado pela desvalorização do real e do alto volume das importações, que é justamente o caso do arroz e açúcar cristal. Além disso, fatores climáticos e a pandemia afetaram diretamente nos preços dos alimentos.  De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a alta acumulada de janeiro a novembro, sem mesmo os dados correspondentes a dezembro, alcançou 12,14%, a maior desde 2002, quando o número foi de 19,47%.

A cesta básica é composta por produtos de acordo com o Decreto-lei 399/1938, válido até os dias de hoje, que divide o país em regiões, diferentes das já conhecidas norte, sul, centro-oeste, nordeste e sudeste. Além disso, o Decreto-lei também define a quantidade diária de consumo. Abaixo você pode conferir a tabela com a divisão das regiões, e a quantidade diária de consumo, que está convertida em mensal.

AlimentoRegião 1Região 2Região 3
Carne6,0 kg4,5 kg6,6 kg
Leite7,5 I6,0 I7,5 I
Feijão4,5 kg4,5 kg4,5 kg
Arroz3,0 kg3,6 kg3,0 kg
Farinha1,5 kg3,0 kg1,5 kg
Batata6,0 kg6,0 kg
Legumes (tomate)9,0 kg12,0 kg9,0 kg
Pão francês6,0 kg6,0 kg6,0 kg
Café em pó600 gr300 gr600 gr
Frutas (banana)90 unid90 unid90 unid
Açúcar3,0 kg3,0 kg3,0 kg
Óleo/banha750 gr750 gr900 gr
Manteiga750 gr750 gr750 gr

A região 1 é composta pelos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Distrito Federal. Já a região 2 estão incluídos os estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Na região 3 estão os estados do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Segundo o nutricionista Murilo Siqueira, a alta da cesta básica prejudica diretamente famílias em condições vulneráveis, pois fica mais difícil atender as necessidades nutricionais. “A alta do preço impossibilita a compra de uma variedade de alimentos, limitando não só o aporte calórico, mas também a ingestão de vitaminas e minerais necessários, principalmente em famílias carentes durante a pandemia”.

Para o nutricionista é necessário que exista uma alimentação balanceada, principalmente durante a pandemia. “O cenário ideal seria se todos tivessem acesso a uma alimentação segura e balanceada, mas mesmo antes da pandemia isso não era possível. O corte do auxílio emergencial dificulta mais ainda a qualidade nutricional e diante da realidade que estamos vivendo é preciso se atentar em manter o aporte calórico diário de 2000 kcal, pois a perda desenfreada de peso atinge a imunidade e aumenta a susceptibilidade a doenças”.

Para driblar os altos valores, uma solução viável é a compra de alimentos em feiras, que torna até mesmo a alimentação mais saudável, uma vez que se tem a oportunidade de adquirir alimentos mais frescos. “Fazer feira, comprando de produtores locais e buscando por alimentos que tiveram uma queda no preço pode ajudar a manter o aporte calórico, mesmo em um período de altas nos mercados”, ressalta o nutricionista Murilo Siqueira.

Com o fim do auxílio emergencial, muitas famílias estão voltando para a situação de extrema pobreza. Alimentos que antes eram inacessíveis, passou a ser uma opção durante a pandemia, enquanto recebiam as parcelas, porém com o fim, grande parte das famílias do interior de regiões como nordeste e norte, estão voltando a ter somente o ovo como proteína principal da alimentação.

Alguns governos têm se esforçado por conta própria para dar um auxílio emergencial a famílias em situação de vulnerabilidade social. Em Belém do Pará, por exemplo, o governo do estado e da capital se uniu para poder pagar auxílio de até R$ 450,00. Já no estado do Amazonas, o governador Wilson Lima (PSC), anunciou o pagamento de R$ 600,00 para famílias do estado que estão em situação de extrema pobreza.

Porém a volta do auxílio emergencial em 2021 é quase nula para o governo federal. “A palavra é emergencial. O que é emergencial? Não é duradouro, não é vitalício, não é aposentadoria. Lamento muita gente passando necessidade, mas a nossa capacidade de endividamento está no limite”, disse o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à apoiadores, na entrada do Palácio da Alvorada, em Brasília, no dia 26 de janeiro deste ano.

E assim milhares de famílias no Brasil padecem sem poderem comprar literalmente o básico para uma alimentação diária. Enquanto contam com pouco dinheiro, os preços dos produtos aumentam ainda mais, e essa falta de alimentação só gera mais e mais pessoas suscetíveis a terem reações mais graves à doença Covid-19, uma vez que a imunidade está diretamente ligada a uma boa alimentação. No fim das contas, morre-se de um jeito ou de outro, seja de fome ou com a Covid, porém a morte está certa somente para um grupo: os pobres.

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