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Como a espiritualidade pode ajudar as pessoas durante momentos de crise como a pandemia de Covid-19?

Foto: Rovena Rosa & Agencia Brasil

Por João Pedro Gomes

As religiões e práticas ligadas à fé são fenômenos importantíssimos na história da humanidade, e são consideradas patrimônios culturais ao redor do mundo. Civilizações desenvolveram sistemas para cultuar divindades há séculos e muitos deles sobreviveram e possuem força até os dias atuais. Observando de forma científica, enquanto pensadores como Friedrich Nietzsche e Auguste Comte se manifestaram contrários a filosofias religiosas, Émile Durkheim e Mircea Eliade buscaram entender esses conceitos e rituais.

Em recente pesquisa do Datafolha, publicada pelo jornal “Folha de S. Paulo”, foi constatado que a maior parte dos brasileiros possuem alguma crença em seres divinos, e não é novidade que o cristianismo ocupou os primeiros lugares da lista. Segundo o levantamento, 50% da população se considera católica; 31% evangélica; 10% declara não possuir religião alguma; 3% se afirma espírita (vertente de Allan Kardec); 2% faz parte de religiões afro-brasileiras, como umbanda e candomblé; e 3,3% se encaixa em outras categorias ou é ateu.

A espiritualidade pode auxiliar pessoas a passarem por momentos ruins e difíceis por meio de crenças, práticas e valores. Na busca por conexão com um (ou mais) ser(es) superior(es), certos grupos de indivíduos utilizam símbolos, dogmas e práticas para clamar por algo que “está acima” de si, criando um vínculo com o sagrado, ou seja, seguem uma determinada religião.  Em situações delicadas como no caso de doenças, perda de alguém próximo, uma crise ou até mesmo durante uma pandemia, os indivíduos costumam se conectar de forma mais árdua com sua fé. 

Desde o início do ano passado, a sociedade vive sob o constante medo de uma doença que já ceifou a vida de mais de 530 mil brasileiros em pouco mais de um ano: a Covid-19. Essa situação caótica causa medo, ataca a ansiedade e gera pânico nas pessoas que temem por suas vidas e das pessoas que amam. Para cuidar da saúde mental e espiritual, cada indivíduo recorre ao que lhe faz bem, e desta maneira, a religião pode ser um benefício. 

Isabella Feitosa, 21, é cristã católica há oito anos e desempenha um papel de liderança em sua comunidade religiosa. No último ano, quando a realização de cultos e missas foi proibida, ela afirma que se sentiu ansiosa e, de certa forma, desamparada: “O período em que os cultos religiosos foram proibidos foi muito difícil por uma série de motivos. Primeiramente, pela ansiedade e medo que a pandemia por si só já causa. Também porque muitas pessoas, assim como eu, buscam a comunidade como um refúgio, o que não foi possível. Mas, na minha opinião, a pior parte foi a proibição ocorrer na época litúrgica mais importante do calendário litúrgico. Explico: tanto em 2020, quanto em 2021, a proibição ocorreu no tempo quaresmal [os quarenta dias que antecedem a Páscoa]. O tempo quaresmal por si só é um tempo de reclusão, mas uma reclusão espiritual. É tempo de intensificar as orações, jejuar e exercer a caridade, e como a pandemia dificultou muitas coisas, com a quaresma não foi diferente. Por fim, as celebrações mais emocionantes acontecem no tempo quaresmal e no tríduo pascal, e infelizmente não puderam ser presenciais. Mas o que importa de verdade é o exercício da fé, e isso nenhuma pandemia pode impedir”, relatou.

A realidade não foi diferente na vida de Larissa Nascimento, 23. A publicitária e missionária se mudou de São Paulo para o Tocantins com a finalidade de propagar sua fé, todavia, em pouco tempo de estadia na capital tocantinense logo experienciou a pandemia. Apesar das dificuldades, ela conta: “Eu acredito muito na força da igreja reunida em um ambiente, mesmo que feito de concreto, mas nada se compara com a sua intimidade com Deus. Por isso neste momento de pandemia eu tive a oportunidade de aprofundar o meu relacionamento com Deus dentro da minha casa.  Mas o que também ajudou muito é que a igreja se uniu com a tecnologia, então há todo momento tivemos cultos on-line, reunião via zoom, lives… e isso ajudou muito para que a fé ficasse aquecida mesmo enfrentando um momento tão delicado”.

Já Jhonny Campos (27) se encontrou espiritualmente durante a pandemia. Há pouco menos de um ano ele se tornou candomblecista e sempre que possível faz questão de desmistificar os preconceitos enraizados nas pessoas: “Tento sempre mostrar e falar da religião para acabar com o preconceito que nos cerca, infelizmente o candomblé é uma religião que sofre muita perseguição”, expõe. “Por incrível que pareça eu encontrei minha casa de candomblé durante a pandemia, foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. A religião que eu estava procurando e nem sabia direito qual era. No começo foi complicado devido às várias restrições, devido oq ainda estamos vivendo, mas deu tudo certo e minha religião é minha vida”, continua.

Thayná Neiva, 26, é jornalista e se encontrou praticando a magia Wicca, uma religião pagã voltada para a natureza e a psique humana, onde duas divindades são adoradas: o Deus Cornífero, representado pelo Sol e pelos animais, e a a “Deusa”, representada pela Lua e pela Terra. Ela explica: “Atualmente sou Wicca, da vertente seax-wicca. Eu ainda estou em estudo e por isso não faço grandes rituais, ainda estou aprendendo a lidar com elementos e a base da vertente é principalmente o estudo, você precisa conhecer para saber, acreditar e fazer”, narra, afirmando que já pratica essa vertente há 4 (quatro) anos. 

De acordo com os quatro entrevistados, todos se sentem bem em suas respectivas fés. Nos últimos anos, cientistas do mundo todo buscam compreender melhor quais os benefícios das crenças na vida das pessoas. O médio Álvaro Avezum Júnior, presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), por exemplo, diz que “A espiritualidade é um estado mental e emocional que norteia atitudes, pensamentos, ações e reações nas circunstâncias da vida de relacionamento, sendo passível de observação e mensuração científica”. Por ser especialista em cardiologia, ele explica que “Quem tem menos disposição ao perdão está mais disponível a enfrentar enfermidades coronárias”. O perdão é um dos maiores estímulos nas religiões.

É importante reiterar que é ressaltado pelas instituições de pesquisa que realizam estudos nessas áreas que não é necessário acreditar em um Deus ou algo do tipo para ser uma pessoa espiritualizada, mas sim cultivar bons sentimentos e não se focar em coisas ruins. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e até mesmo a Escola de Medicina de Stanford, as Universidades Duke, a da Flórida, a do Texas e Columbia afirmam que não se prender a sentimentos ruins melhora a sua qualidade de vida, independente de uma religião.

Para trazer bons sentimentos aos leitores, cada convidado dará uma instrução de como praticar alguma das fés acima de casa, caso você tenha despertado interesse. Além disso, eles também prepararam mensagens de estímulo. 

“Falando sobre a fé Católica, que é o meu local de fala, aconselho muito nesses tempos de reclusão que rezem o terço. Participem das missas, mesmo que à distância, e façam sua comunhão espiritual. Intensifique suas orações e pratiquem a sua fé. Por mais que estejamos passando por tempos difíceis, um dia tudo isso passará. Independente da sua crença, saiba que todo mal vem para um bem, mesmo que isso não esteja sempre claro. Aos Cristãos, se recordem quão árdua foi a caminhada de Jesus, e como tudo valeu a pena no final. Que a paz esteja sempre convosco”. Isabella Feitosa, 21. 

“A principal dica é: estude. Você precisa conhecer muitas coisas antes de usar seus conhecimentos para manipular energias. A bruxaria não é mágica, é conexão, principalmente com a natureza; o Deus e a Deusa são a representação da nossa terra, então você precisa saber pra que servem ervas e essências, além de o que atrai cada tipo de material, sobre os significados das comemorações, o poder de cristais e rochas. Estudar, praticar e acreditar são os principais, mas o livro completo da bruxaria, do Buckland, é um bom começo também.    Minha mensagem é a principal “regra” da Wicca, uma frase bem famosa que é praticamente o essencial: faça o que desejar, sem a ninguém machucar. Muitas vezes a gente tem medo de seguir religiões diferentes, mas esse medo vem principalmente de toda a perseguição às religiões pagãs, que demonizou a bruxaria”. Thayná Neiva, 26.

“A primeira coisa é entender que Deus pode falar com você em qualquer lugar. Então, crie uma rotina de devocional, tire um momento exclusivo para ler a bíblia, orar e se conectar com Deus. Outra dica é que a internet tem muitos conteúdos ricos que podem te fortalecer neste momento. E por último, mas muito importante, busque uma igreja que faça transmissão de cultos e atendimentos on-line para que você possa ter uma rede de apoio. Eu creio que Deus é maior do que qualquer problema, e ainda que nós não entendamos os planos, ele sempre tem um propósito para tudo e sempre está no controle de todas as coisas. Salmos 9:10 – Os que conhecem o teu nome confiam em ti, pois tu, Senhor, jamais abandonas os que te buscam. Filipenses 4:6,7 – Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus. Então, busque ao Senhor, confie em Deus e aprenda a descansar n’Ele e receba uma paz que excederá o seu entendimento” Larissa Nascimento, 23. 

“Não sou muito de aconselhar, mas creio que todos devemos nos apegar a Deus e as suas entidades nesse momento complicado, porque eles nunca nos desamparam, estão sempre nos cuidando e vigiando por nós, temos que ter amor e confiança, logo passaremos por tudo e estaremos todos vacinados contra esse vírus que assusta a muitos.  Gostaria de dizer que mesmo nesse momento sombrio e incerto que vivemos, não podemos perder nossa fé, independente da religião que cada um segue, se apegar a Deus e todos que nos acompanham, para seguir forte e firme.” Jhonny Campos, 27.

Revisão por Ivan Trindade

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