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Hospitais em crise e profissionais da saúde com péssimas condições de trabalho: o desespero bate à porta dos cidadãos

Imagem: Dynyme Hergbeth

Por João Pedro Gomes

Que a área da saúde é indispensável e fundamental para a humanidade  — principalmente durante uma batalha contra um vírus novo que assolou o mundo inteiro — todos sabem. Médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem e toda a equipe dos hospitais que estão no front da guerra pela vida é extremamente necessária neste momento. A coragem e eficiência existentes nesses profissionais é admirável e ficará marcada na história. Todavia, a situação no Tocantins não parece muito boa nas unidades hospitalares. 

Os profissionais da área realizam, há tempos, reclamações acerca das condições de trabalho e dos locais em que estão atuando, sejam municipais ou estaduais. Com o agravamento da pandemia neste ano, a situação se intensificou a um nível avassalador; o caos se instalou e as coisas chegaram a um grau jamais esperado há um ano atrás, quando o novo coronavírus (SARS-CoV-2) chegou ao Tocantins. No dia 30 de março de 2021, a fila de pacientes diagnosticados com COVID-19 na espera por um leito clínico hospitalar e de UTI chegou a 100 pessoas; não havia leitos (e, por leitos, inclui-se medicamentos, profissionais e equipamentos, não apenas macas) para todos que precisavam, nem nas unidades particulares e nem nas públicas. Na mesma semana, o número de óbitos por Covid no Estado chegou a marca de dois mil casos. O número de mortos já é maior que o de alguns municípios do Tocantins, como Chapada de Areia (1.401), Crixás (1.708), Oliveira de Fátima (1.006), São Félix do Tocantins (1.572) e Tupirama (1.860). 

O caso no Hospital Geral de Palmas (HGP) é relatado pelos funcionários do local: a maior unidade de saúde do Estado chegou ao ponto de não ter mais espaço disponível para separar os pacientes que estão com o SARS-Cov-2 ativo em seus corpos dos que não possuem o vírus, mas chegaram ao hospital com outra enfermidade. A situação foi denunciada pelos próprios médicos que atuam no local, que informaram que ao menos duas pessoas chegaram nos recintos do HGP sem o novo coronavírus, mas adquiriram no local — e vieram a óbito por isso —. O cardiologista Vinicius Pires relatou, em entrevista ao G1: “Na nossa sala vermelha, a gente tem uma unidade de isolamento. Mas há muito tempo essa unidade já foi extrapolada e nós começamos a reter pacientes Covid positivo junto com os pacientes da Urgência e Emergência. E estes pacientes, devido a proximidade, estão contaminando outros pacientes que não são Covid. “Infelizmente já aconteceu de nós recebermos pacientes que não eram Covid, pegaram Covid na Sala Vermelha e vieram a óbito”, disse. 

Macas de pessoas contaminadas por COVID-19 e de pessoas não contaminadas no mesmo ambiente. Imagem: Divulgação

Rita Dias, uma senhora de 81 anos, foi uma das vítimas que o médico denunciou o óbito. Dando entrada na sala vermelha do HGP no dia 12 do mês passado com infecção urinária, ela contraiu Covid-19 e morreu três dias depois, na segunda-feira, 15. Fotografias tiradas no interior da unidade mostram o que a Secretaria de Estado da Saúde (SES) negou: pacientes com a síndrome respiratória deitados próximos a pessoas com outras doenças. Outro caso também é conhecido e relatado pelo cardiologista: uma paciente de Miracema do Tocantins, de apenas 31 anos.

A SES contestou os casos relatados pelo médico: “A SES informa que estes pacientes realizaram o exame para investigação de contaminação pelo novo Coronavírus logo que chegaram à unidade, conforme protocolo assistencial. O teste positivo foi recebido nesta segunda-feira e, portanto, é inverídica a informação de contaminação dentro do ambiente hospitalar, devido o período de incubação do vírus”, afirmou por meio de nota. 

Além do mais, outras infelizes situações estão ocorrendo, como é o caso de atraso no salário dos colaboradores da rede estadual de Saúde: até profissionais que atuam na linha de frente contra o novo coronavírus no Hospital Geral de Palmas (HGP) e na Maternidade Dona Regina estão fazendo constantes reclamações e cobrando uma solução imediata. Diversas denúncias relacionadas a falta de pagamento tem ocorrido, inclusive de funcionários que nunca se afastaram de suas funções ou trabalharam de maneira remota, mesmo que isso tenha sido permitido ainda no ano passado para os servidores que tenham comorbidade. 

O secretário de saúde do Tocantins, Edgar Tollini, afirmou em entrevista à TV Anhanguera que os servidores devem comprovar serviço para receber. “Temos 3 mil funcionários dentro do HGP e tivemos em torno de 100 que não receberam. Alguns comprovaram o efetivo labor dentro da unidade. […] Aqueles que estão afastados tem que mostrar o labor e comprovar o exercício do home office. O funcionário que foi dispensado, provavelmente é um contrato que eu tenha que substituir por outra pessoa. Hoje o número de afastados da Secretaria de Saúde chega a 800″, disse. A declaração não agradou os funcionários que estão na front line, que pedem por melhores condições de trabalho.

Há algumas semanas, funcionários do Hospital e Maternidade Dona Regina, a maior maternidade pública em todo o Tocantins, na capital tocantinense, têm denunciado as condições precárias de trabalho na unidade. A falta de medicamentos básicos e de materiais como luvas cirúrgicas, máscaras e equipamentos de proteção individual são pautados pelos profissionais. A unidade também está superlotada: ao fim do mês de fevereiro, uma gestante realizou um parto no chão da unidade. O acompanhante que realizou a denúncia relatou o caso com detalhes: “As enfermeiras pegaram um pano, botaram no chão, colocaram a mulher no chão e mandaram ela fazer força para a neném sair. A mulher teve a bebê dela no chão aqui do Dona Regina”, […] “Ela ficou uma meia hora gritando, entrando em trabalho de parto em uma cadeira, sentada e sozinha. Depois de uma meia hora que ela estava gritando que veio enfermeira ajudar a moça a ter a bebê”, finalizou.


No dia 19 do mês passado, o centro cirúrgico da Maternidade chegou a ser fechado depois que todas as salas foram ocupadas por mulheres e crianças diagnosticadas ou com suspeita de terem COVID-19. Um servidor do hospital divulgou imagens que mostram os pacientes internados no local. Funcionários denunciaram a situação, que afirmaram ser “um grande risco”, pois, “caso seja necessário realizar um parto por cesariana, teria de ser feito no corredor, já que a sala de cirurgia estava ocupada”. A Secretaria de Estado da Saúde (SES) informou que, na noite da situação em questão, foi realizado o parto de duas gestantes infectadas pelo novo coronavírus no Hospital e Maternidade Dona Regina (HMDR). A secretaria afirmou ainda que seguindo todos os protocolos de biossegurança, os profissionais de saúde foram paramentados, as salas isoladas e os partos realizados. A SES também divulgou a informação de que as gestantes estiveram em isolamento em duas salas do centro cirúrgico, até que foram transferidas, com segurança, para leitos de isolamento na unidade ou fora. 

Paciente na sala de cirurgia do Dona Regina. Imagem: Divulgação

Mesmo com todos estes casos relatados e registrados, a SES negou as acusações dos funcionários, quando procurada para comentar o caso. Disse que não há falta de EPIs ou medicamentos na unidade. “A SES ressalta que todas as medidas de prevenção e segurança biológicas estão sendo tomadas na Unidade, não há falta de equipamentos de proteção individual (EPI), que são distribuídos de acordo com o nível de possível contaminação e local de trabalho dos profissionais. Também não há falta de medicamentos ou insumos; as faltas pontuais estão sendo substituídas por fármacos similares sem alteração na assistência.”, divulgou por meio de nota.

A vice-presidente do Sindicato dos Enfermeiros no Estado do Tocantins, Valéria Queiroz, denuncia: “Nós falamos há anos: precisamos de melhores condições de trabalho, uma melhor alimentação digna para o servidor, que não faltem insumos ou medicação, que sejamos respeitados como enfermeiros, como servidores no Estado. Hoje, no momento gravíssimo que o país e o Tocantins vivem, onde estamos perdendo colegas de trabalho por causa dessa pandemia, desse vírus. O governo não nos respeita como servidores. Hoje, temos colegas da área trabalhando de home office que passam meses sem receber. Os contratos que são feitos de três em três meses vencem e só depois os profissionais recebem. A insalubridade está sendo cortada  (…), a gente almoça em quinze minutos, quando dá! Nós temos a enfermagem tocantinense desrespeitada!”. Ela pontua: “Os enfermeiros precisam de 30 horas. A enfermagem precisa de piso salarial a nível federal. É uma vergonha!”.

É, de fato, vergonhoso que profissionais da saúde passem por este tipo de situação, em que não podem contar nem sequer com aparelhos essenciais para desempenharem o seu trabalho de maneira segura. A procura pelos serviços hospitalares está em níveis alarmantes, a ponto de que os enfermeiros, técnicos em enfermagem, médicos e demais pessoas desta área não conseguem atender todo mundo. Diversas pessoas buscam as unidades de saúde para tratar diversas enfermidades e, principalmente, a COVID-19, e os atuantes da linha de frente tem que “se virar” como podem para “fazer das tripas coração”, na tentativa de ajudar o máximo de pessoas possível. A Saúde merece atenção. O povo merece um atendimento de qualidade. E, para finalizar, as palavras da enfermeira Valéria Queiroz fala pelos funcionários que estão no front: “Não queremos mais aplausos. Os aplausos nós merecemos no dia-a-dia, fora a pandemia. Precisamos dos nossos direitos!”.

Revisão por Ivan Trindade

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