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Machismo na indústria musical: de Britney Spears a Taylor Swift

Por Luiz Filho

Lançado no último dia 21 de janeiro, o documentário “Framing Britney Spears”, levou o nível da discussão do machismo na indústria musical a outro nível. O projeto produzido pelo The New York Times, relata a difícil relação de Britney Spears com seu pai, Jamie Spears, que atualmente detém a tutela legal sobre todas as decisões relacionadas à vida da filha, tanto no âmbito profissional, quanto pessoal, como por exemplo ter o poder de decidir se a cantora pode ou não se casar.

Porém essa história é muito mais antiga, e há anos estamos acompanhando de forma ferrenha a indústria, não só da música, mas da imprensa e entretenimento abusarem e utilizarem de táticas apoiadas no machismo e patriarcado, para abusar de artistas femininas. 

O famigerado “surto”, que Britney Spears sofreu em 2007, foi o ponto em que ficou nitidamente claro que a situação já tinha extrapolado o aceitável. Enquanto Britney Spears estava saindo de um divrcio conturbado, perdia parte da guarda dos filhos e seu pai assumia sua tutela, a cantora foi perseguida, julgada, e passou por situações complexas, que fizeram dela alvo de capas de diversos jornais e revistas da época. 

Foto: Reprodução/The New York Times

Após a exibição do documentário a Revista Glamour dos Estados Unidos, pediu desculpas publicamente a cantora. Em uma publicação no Instagram, com a foto da cantora, na legenda a revista disse “Pedimos desculpas, Britney. Todos nós somos culpados pelo o que aconteceu com Britney Spears – nós podemos não ter causado sua queda, mas nós a financiamos. E nós podemos tentar compensar isso”. 

Na altura do campeonato, essa retratação da revista não muda o cenário para a artista, mas demonstra como até mesmo revistas que são voltadas para o público femino, estão perpetuando utilizando de modos e falas carregadas de machismo. Em outro trecho do pedido de desculpas, a revista cita, por exemplo, o modo diferente como são tratados os cantores homens e as cantoras mulheres. “Nós apoiamos Justin Timberlake após seus clipes com tema Britney, suas entrevistas que giravam em torno de Britney, suas esquetes sobre fazer sexo com ela no SNL.”, disse a revista que enquanto exaltava Justin Timberlake, ex-namorado da artista, fazia matérias e capas com textos depreciativos e por vezes sexistas. 

Em sua conta no Twitter, após a exibição do documentário a cantora falou “Eu amo poder aproveitar os pequenos momentos da vida todos os dias. Cada pessoa tem sua história e sua opinião sobre as histórias dos outros. Nós todos temos vidas lindas e brilhantes. Lembre-se, não importa o quanto a gente acha que sabe sobre a vida de uma pessoa. Nada se compara a própria pessoa por trás das câmeras”. O modelo Sam Asghari, atual namorado de Britney Spears, usou as redes sociais para se colocar contra o pai da artista, e afirmou que Jamie Spears tenta até controlar o relacionamento deles. O modelo ainda chamou o pai da cantora de idiota.

Infelizmente, Britney não é a única a sofrer com essa perseguição. Impossível não se lembrar do triste fim que teve a pessoa e a carreira da, também cantora, Amy Winehouse, que teve sua vida prematuramente interrompida, por overdose de 2011. A cantora, que sofria com transtornos alimentares, vivia sendo perseguida por paparazzis, perdeu controle da sua vida e foi completamente consumida pela mídia. Diferente de Britney Spears, Amy nunca recebeu um pedido de desculpas, e mesmo em seu leito de morte, não recebeu o mínimo de respeito, sendo retratada de forma maldosa e sem qualquer ética profissional por parte dos jornalistas que fizeram a cobertura. 

Foto: Reprodução/Internet

Porém a perseguição vai muito além dos paparazzis. Taylor Swift, por exemplo, trava uma grande batalha com sua ex-gravadora, que atualmente é comandada pelos empresários Scott Borchetta e Scooter Braun. Após sair da Big Machine Records. sua antiga gravadora, a cantora perdeu o controle de suas músicas dos últimos 13 anos de carreira. 

Em um desabafo feito em rede social, a artista chegou a dizer que estava sendo impedida de poder performar suas músicas. A condição imposta pelos atuais donos da gravadora era que ela poderia sim performar a músicas e divulgar em projetos pessoais, caso se comprometesse a não regravar as canções. Em um trecho do desabafo a cantora relatou que sentia como se “A mensagem que estão me enviando é muito clara. Basicamente, seja uma boa menina e cale a boca. Ou você será punida.”.

Como a artista é compositora de todas as músicas, ela detém domínio de letra, neste cenário, Taylor se comprometeu a regravar parte do seu catálogo de músicas. Recentemente a cantora divulgou um anúncio, informando a data de lançamento da nova versão do álbum Fearless, o segundo da carreira. O projeto se chamará “Fearless (Taylor’s Version)” e será lançado no dia 9 de abril de 2021. Ela ainda contou que Love Story, uma das músicas mais populares de sua carreira, será relançada como single. 

Foto: Reprodução/Instagram Taylor Swift

Mas engana-se quem acredita que essas estruturas da indústria atingem somente as mulheres. Cantores LGBTs, sofrem das mesmas perseguições. Talvez não seja de conhecimento para muitos, nos dias atuais, mas o cantor britânico George Michael, por exemplo, foi exposto e assumiu sua sexualidade, após ser pego em uma emboscada em que caiu numa armadilha armada por um policial à paisana, sendo preso por atentado ao pudor e sua carreira drasticamente afetada após isso. 

E mesmo quando já começa uma carreira assumindo, como é o caso de Pabllo Vittar, drag queen, o boicote é uma realidade forte. A artista até hoje sofre com perseguição de rádios que não tocam suas músicas, que mesmo quando os ouvintes ligam pedindo. Em premiações a cantora nunca é indicada em categorias de melhor cantor, somente em categorias que apontam as músicas em si, e na grande maioria por pressão do público, uma vez que as músicas são as mais tocadas nos últimos quatro anos. 

Embora seja justamente as cantoras mulheres e LGBTs que mais arrecadam dinheiro e movimentam a indústria musical, nacional e internacional, o cenário não mudará jamais se quem continua nos altos escalões de gravadoras, rádios, empresas que realizam patrocínios, as lojas de discos, entre tantos outros lugares, ainda são homens, velhos, héteros, ricos e brancos, tecendo os regimentos baseados em suas criações do patriarcado tirando com apoio de falas machistas e sexistas. 

Britney Spears está sob a tutela do seu pai, desde 2008, desde então a cantora lançou 4 álbuns, duas turnês mundiais, uma residência em Las Vegas de cinco anos, se tornando uma das mais populares e rentáveis. Porém, ainda assim, em 2020, quando pediu a quebra da tutela e controle do pai, o juiz não concedeu o direito da cantora poder controlar suas finanças e tão pouco sua própria vida. A artista segue sendo tratada como incapaz para cuidar de tomar decisões pessoais e profissionais, mas para trabalhar ela é tida como sã. 

E não para por aí, na verdade, são diversos os casos de como o machismo ainda trilha os caminhos lado a lado da carreira desses cantores. Por exemplo, em 2018, Lorde era a única mulher indicada ao prêmio de melhor álbum do ano do Grammy, porém enquanto todos os outros indicado receberam um espaço para performar as músicas do álbum, a cantora não poderia cantar suas músicas, sendo convidada a cantar em uma apresentação com outros cantores em uma homenagem a Tom Petty, no qual a artista recusou, e com razão! 

Na ocasião, a cantora … usou um vestido vermelho, em na parte de trás estava bordado um poema da artista Jenny Holzer que faz parte da série “Inflammatory Essays”. Em tradução o trecho diz “Regozijai-vos! Nosso tempo é intolerável. Tenha coragem, pois o pior é um presságio de algo melhor. Apenas uma circunstância terrível pode precipitar a queda dos opressores. O antigo e o corrupto devem ser destruídos antes que o justo possa triunfar. A contradição será cada vez maior. O apocalipse florescerá”.

Foto: Divulgação/Instagram Lorde

Mas ainda é muito pior, quando se tece um recorte social e racial. Mulheres negras, latinas e asiáticas, sofrem ainda mais com o machismo, pois ele ainda vem adornado do poder de proprietário, resquícios de um período de escravidão contra esse povo que são vistos como inferiores até os dias de hoje para uma grande maioria de empresário brancos. Sendo que eles precisam agir três vezes mais do que artistas brancos, para poderem receber o equivalente.

É um avanço muito grande, só desses artistas estarem ocupando esses lugares e tomando, ou pelo tentando, as rédeas da indústria musical, mas essa estrada está só no começo, e infelizmente, parece faltar muito para se conseguir o justo ou pelo menos o mínimo. Como disse Pitty certa vez, “quase, não é lá!”.  

É de se esperar que com o avançar dos anos, atitudes machistas tendem a diminuir, principalmente para aqueles que já estão muito bem posicionados na sociedade, como é o caso de artistas famosos e de prestígio. Porém a realidade é outra! Na verdade, talvez seja justamente por conta desses artistas passando por situações de machismo absurdos ainda nos dias de hoje, que fica claro para gente, que ainda temos muito o que caminhar, uma vez que eles, de seus altos pódios, passam por essas situações, imaginem nós “meros mortais” em nossos dia a dia.

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