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No fim da fila: Qual a expectativa da população comum para receber a imunização contra a COVID-19?

Imagem: Edu Fortes

Por João Pedro Gomes

Em meio à execução da primeira etapa de imunização nacional contra a COVID-19, o Tocantins tem imunizado todos os profissionais da saúde que batalham na linha de frente contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2), idosos que habitam em lares de longa permanência (esses, inclusive, já foram todos vacinados) e indígenas que vivem em aldeias, no interior do Estado. 

O momento é de comemoração para a ciência e para a população, dada a velocidade em que as vacinas foram desenvolvidas desde o início da disseminação do vírus no ano passado, algo completamente novo para o mundo inteiro. Em Palmas, a primeira remessa de vacinas da CoronaVac (desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac) chegou em janeiro, e o processo de vacinação já teve início no dia 20 do mesmo mês, com seu início marcado por uma cerimônia simbólica na Unidade de Saúde da Família (USF) da Arno 61 (503 Norte), onde ocorreu a imunização dos profissionais de saúde que trabalhavam ali, contra o novo coronavírus. 

Ainda no dia 24, foram entregues 11,5 mil doses da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca, que também foram utilizadas na vacinação dos grupos prioritários. Entretanto, o processo de vacinação do Estado foi considerado lento. Para exemplificar: no município de Palmas, que recebeu 3.331 doses da primeira leva da CoronaVac, 90% ainda não haviam sido utilizadas uma semana após o recebimento das mesmas. 

Para que a população consiga acompanhar este processo, a ferramenta “Vacinômetro” foi desenvolvida pela Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins (SES).  Nela, estão contidas as informações principais disponibilizadas pela SES, como quantidades de doses recebidas no Estado, listadas por municípios e aplicadas na população prioritária que fazem parte da primeira fase da imunização.

Como anda a expectativa para a imunização?

“Puxando o gancho” dessa problemática, a Revista PMW decidiu ouvir as pessoas que estão recebendo as primeiras doses no Estado, porém, além disso, resolveu escutar também o outro lado da moeda: as pessoas que não possuem nenhuma comorbidade especial e, portanto, serão as últimas a receberem a vacinação, o que ainda não possui data. 

Em entrevistas com pessoas de todo o Tocantins, alguns questionamentos a respeito do processo de vacinação foram levantados. Dos entrevistados, 23% afirmou já ter contraído COVID-19, enquanto 77% afirma que não, ou, pelo menos, não tem conhecimento. Quando questionados se irão tomar a vacina, 96% disse que sim, enquanto apenas 4% disse que não ou não ter certeza ainda.

“Acredito que a vacina atualmente é a melhor maneira de enfrentar e se proteger do vírus.”, afirma a jornalista Gabriela Alves, de 23 anos. “A vacina é a única solução para que nossas vidas voltem a ser como eram. Assim como diversas outras doenças que foram controladas com a vacinação, da mesma forma será a COVID-19”, completa Guilherme Gandara, também jornalista. Tharinne Barbosa, 27, designer, afirma que sua maior preocupação é com seus familiares: “Estou mais ansiosa para que meus familiares tomem assim que possível”, declarou. Kelley Estela, estudante, categoriza o futuro acontecimento como um marco: “Será algo histórico”.

Já Victor Emmanuel, fotógrafo, sente falta dos momentos reunidos com amigos em segurança: “Receber a vacina será um momento muito importante pois estar presente com outras pessoas sem o medo constante de contrair o vírus será muito gratificante”. Valéria é vendedora e sua sinceridade é marcante durante a entrevista: “Não aguento mais os bares fechados e pessoas morrendo”. Já Lucas Mennezes, cantor, afirma que está ansioso para ser vacinado: “Não vejo a hora de dizer que estou imunizado e não precisar mais usar máscara, por exemplo, já que ela ataca minha alergia, e poder abraçar e confraternizar sem peso na consciência.”

Apesar de um pouco distante, Isabella Santa Rosa se mantém positiva e consciente: “Acho que como cidadã, é meu dever me proteger e proteger as pessoas que vivem comigo”, pontua. A estudante de medicina veterinária, Laíla Maria, também se preocupa com seus parentes e amigos: “Estou ansiosa por isso pois é muito importante não só para minha proteção e sim para a proteção de um coletivo todo”. Paulo Atavila, cientista da computação, defende a proteção da população para o retorno das atividades econômicas: “Acredito que a vacina é a única saída para voltarmos a ter uma vida como antes. Além de possibilidade de retomar a economia do país”, finaliza. 

E a maneira como as coisas foram conduzidas pelo Governo Federal durante a pandemia?

Foto: Sérgio Lima

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez, por diversas vezes, declarações que colocam em questionamento a periculosidade do vírus, indagou a eficácia das vacinas e ainda indicou medicamentos para o tratamento da COVID-19 que não possuem eficácia comprovada cientificamente contra o SARS-CoV-2. 

“Muito do que falam é fantasia, isso não é crise”, “Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. É a vida. Você não pode parar uma fábrica de automóveis porque há mortes nas estradas todos os anos”, “Há 40 dias venho falando do uso da hidroxicloroquina no tratamento do covid-19”, “Eu não sou coveiro, tá certo?”, “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, “Quem esperava? Depois de meses difíceis, chegarmos a uma situação de quase normalidade, ainda em 2020” e  “Ninguém me pressiona para nada, eu não dou bola para isso” são falas do próprio presidente. 

Em meio a um mar de desinformação e notícias falsas, parte da população é levada por essa enxurrada. Quando questionados se há algum comentário sobre a maneira como as políticas públicas foram conduzidas no período de caos e da produção, distribuição e disponibilização das vacinas, os cidadãos que se encontram no fim da fila para receber a imunização não pouparam críticas.

“O estado é [culpado] principalmente no que corresponde a saúde foi administrativo de maneira irresponsável, incompetente e genocida”, dispara Gabriela Alves. A designer Tharinne também não poupou críticas: “O governo se mostrou irresponsável desde o início da pandemia minimizando o risco [da doença] e, além disso, promoveu o uso de um remédio sem eficácia. Hoje, além da irresponsabilidade que já é usual, ainda atrasa o acesso da população à vacina”, finalizou. Julia Caroline afirmou: “Governo completamente perdido e irresponsável. Desde o início da pandemia está sendo negligente com a população, sem prestar a devida assistência e propor um plano decente a ser seguido pelos demais governantes. O caos aumenta a cada dia”.

“O Governo Federal banalizou e debochou muito da vacina, utilizando argumentos infundados para culpar a China pelo surgimento da doença e [fez] isso servir de base para não comprar vacinas fabricadas pelo país. A ignorância do presidente causou mortes, devido ao descuido com os Estados que precisavam de assistência, sobretudo o Amazonas. Poderíamos escrever uma redação para descrever a conduta infantil e ignorante do presidente, porém é cansativo e desgastante falar sobre o tal genocida”, criticou o jornalista Gandara. “O Governo Federal foi extremamente irresponsável, promovendo negacionismo, tratamentos sem comprovação científica e deixando os governos estaduais à Deus dará”, pontuou Kelley Estela.

Ana Beatriz Marinho, estudante, lamentou: “Descaso com a população e as pessoas que infelizmente não resistiram à doença”. Em conversa com Gabriela Aparecida, a estudante de direito também não economizou críticas: “Tenho todas as críticas possíveis. Isso é um desgoverno, onde além de nenhuma das lideranças se preocuparem em resolver absolutamente nenhum dos problemas resultantes do vírus, ainda atrapalharam todos que estavam fazendo algo. Desde a produção de imunizantes, até a compra de insumos e as relações internacionais, que são tão essenciais nesse período caótico. Como se não fosse suficiente a má administração, ainda espalharam fake news a respeito das vacinas e estimulando uso de remédio sem eficácia nenhuma comprovada, investindo dinheiro público nesses medicamentos, ao invés de investir em vacinas. Isso é desumano e cruel. Foi e está sendo desesperador vivenciar uma pandemia em pleno governo do Bolsonaro”, criticou revoltada.

Ao passo que a vacinação já ocorre, mais casos de COVID-19 surgem ao redor do Brasil. Apenas no Tocantins, mais de 103 mil casos já foram confirmados, sendo que, destes, mais de 1.400 vieram a óbito. Distanciamento social, máscara e álcool em gel são excelentes maneiras de prevenir o vírus, mas apenas a vacina é eficaz contra a doença. A população carece de um plano ágil que permita o máximo de imunizações possível no menor prazo de tempo, pois apesar de existirem comorbidades, o vírus não escolhe suas vítimas por idade. Além disso, também se fazem necessárias políticas públicas que permitam a maior escala de produção dos imunizantes possível. É uma questão de saúde pública, o que pede para que o governo largue suas crenças e aposte na ciência. 


Revisão por Ivan Trindade

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