fbpx

Variante brasileira do novo coronavírus X caos na saúde pública: o Tocantins está entrando em colapso

Imagem ilustrativa. Foto: Divulgação/Internet

Por João Pedro Gomes

Um ano após o início da pandemia de COVID-19, o Brasil não se encontra em bons lençóis. Apenas no dia 03 deste mês de março, o país apresentou seu pior cenário dentro de 24h: são 1.910 casos de falecimento notificados pelas secretarias estaduais de saúde em decorrência da doença no país, o que leva o Brasil ao triste marco de 259.472 vidas perdidas. Talvez (e possivelmente), até o lançamento desta matéria, o recorde possa ter sido ultrapassado, pois o número é móvel, dada a alta dissipação do vírus neste momento. 

A situação é tão caótica que autoridades internacionais têm se preocupado bastante com o Brasil. “De que adianta resolver a pandemia na Europa ou nos EUA, se o Brasil continua a ser um terreno fértil para esse vírus? Se você permitir que o vírus seja transmitido nos níveis em que está se proliferando aqui, você abre a porta para a ocorrência de novas mutações e o aparecimento de variantes ainda mais letais”, afirmou o neurocientista da Universidade de Duke (EUA), Miguel Nicolelis, em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

No início de 2021, órgãos de saúde notaram um novo padrão durante o aumento de casos de contaminação pelo vírus: o crescimento considerável de infecção entre pessoas de 30 a 39 anos pela COVID-19. Esse grupo, previamente não considerado de risco, tem marcado cada vez mais presença em hospitais com o sintoma mais grave da doença: insuficiência respiratória. Além disso, muitos indivíduos, antes contaminados uma vez, se reinfectaram, o que apontava para algo temido, porém provável: uma variante brasileira da doença.

A possibilidade não era descartável, visto que em setembro do ano passado, o primeiro caso de uma nova cepa foi detectado no Reino Unido. Em novembro, cientistas já apontavam que um quarto dos casos de contaminação em Londres era resultante desta variação; Em dezembro, o número subiu para dois terços. “É realmente muito cedo para dizer… Mas pelo que vimos até agora, está crescendo muito rapidamente, está crescendo mais rápido do que [uma variante anterior] jamais cresceu. É importante ficar de olho”, o pesquisador Erik Volz, do Imperial College de Londres, chegou a afirmar em uma palestra, na época. Entretanto, apesar de já não ser o mesmo vírus que surgiu em Wuhan, na China, essa — intitulada VOC 202012 —  não foi a única linhagem detectada. 

A 501.V2, como é chamada, foi descoberta na América do Sul, todavia, casos na Áustria, Noruega e Japão também já foram relatados. Na época, por ser uma novidade, os cientistas se assustavam com a possibilidade de ela ser mais mortal e contagiosa, além de invalidar os imunizantes já existentes. Mesmo que o cenário atual ainda seja de pesquisa para chegar a conclusões de como combater essa novidade, os pesquisadores já possuem algumas conclusões.

Isso significa que as vacinas desenvolvidas perdem eficácia? A resposta para essa pergunta ainda é estudada pelo mundo inteiro, mas os resultados não parecem ruins. Um estudo, assinado por mais de 30 pesquisadores da USP, da Unicamp e da Universidade de Oxford, procura avaliar a eficácia de anticorpos contra a cepa P.1. A pesquisa mostra que o poder de neutralização do vírus é menor, mas ainda eficaz. 

A variante brasileira

A P.1, como é identificada, teve seu primeiro diagnóstico em Manaus, Amazonas, durante o fim de 2020. Todavia, seu espalhamento para o resto do país foi apenas uma questão de tempo. Atualmente, essa variante já foi identificada em, pelo menos, 18 estados. Estudos dos cientistas Nuno Faria e Ester Sabino apontam que o grau de infecção é ainda duas vezes maior que o vírus comum, além de que a nova cepa aumenta 10% a quantidade de vírus nas células.

Cientistas afirmam que a nova cepa pode ter sido a responsável pelo colapso de saúde do Estado do Amazonas, no mês de janeiro. “Essa mutação pode favorecer a transmissão do vírus. Não sabemos ainda se ela faz os casos serem mais graves, mas essa aceleração que vimos causou um colapso total em 18 dias”, afirma o chefe da sala de acompanhamento da Fundação Vigilância em Saúde do Amazonas, Daniel Barros, em coletiva de imprensa. 

O Tocantins, inclusive, recebeu 17 pacientes em tratamento contra a doença. No dia 31 de janeiro, os manauaras chegaram a Palmas num avião da Força Aérea Brasileira (FAB), por volta das 20h. Até o momento, 4 casos de óbito já foram registrados entre os infectados, que já apresentavam grupo de risco e comorbidades. Além disso, foi confirmado pelo Secretário de Saúde do Tocantins, Edgar Tollini, a nova cepa da COVID-19, diagnosticada em um dos pacientes que foi transferido de Manaus para Palmas. O homem já foi curado e retornou para sua cidade de origem.

Como anda a situação na capital tocantinense?

O Tocantins já contabiliza 1.539 casos de falecimento pela doença (até o dia 3 de março), e em Palmas a situação pode ser considerada de colapso: dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES) apontam que os leitos de UTI para tratar casos de infecções pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) estão escassos. As unidades de saúde particulares já não possuem vagas, e as públicas estão à beira da lotação. Como medida interventiva, a prefeita de Palmas, Cinthia Ribeiro (PSDB), anunciou 12 novos leitos para o tratamento da doença, sete localizados na região norte e cinco na região sul. A UPA Sul, inclusive, será exclusiva para tratamento da COVID-19, e a população se divide: parte deseja medidas mais restritivas para evitar a dissipação do vírus, como lockdown, parte acredita que existem outras saídas. 

Além disso, um novo decreto, emitido pela Prefeitura de Palmas no dia 03 de março, ordena novas medidas para evitar a proliferação da doença: entre os dias 06 e 16 deste mês, o comércio funcionará de maneira diferente. Apenas estabelecimentos considerados essenciais (como supermercados, farmácias, hotéis, unidades de saúde e outros) poderão funcionar, e ainda assim, haverá limitação de horário, com permissão de abertura entre 6h e 20h. Postos de combustíveis, farmácias, serviços hospitalares, serviços de hotelaria, de segurança pública e privada, de táxis, bem como empresas que atuam como veículo de comunicação, poderão funcionar em horários diferentes. No caso de supermercados, o funcionamento será até 22h. Vale reiterar que esse sistema não é lockdown, pois não proíbe a circulação nas ruas. Buscando saber a opinião pública, a PMW ouviu a população, que se mostra dividida quando o assunto é a fase mais rígida do isolamento. 

Dynyme Hergbeth, 34, é publicitário e contrário à medida: “Devemos ter uma visão geral, as medidas devem ser geradas com cautela. Se o comércio fechar no momento que está… ao meu ponto de vista, estamos vindo de um momento de recuperação (financeira). Uns amigos meus (empresários) ainda estão se recuperando, e a previsão para isso é daqui um ano ou dois. Os empresários não vão aguentar. Por isso eu sou contra, o que está envolvido é além da prevenção, envolve o sustento das famílias. O microempreendedor, comerciante, é o que mais vai sentir o “baque”. O que move a cidade é o comércio. Isso vai comprometer, e muito, o pai de família que estava procurando emprego, encontrou, e perdeu novamente devido ao isolamento. Acredito que obedecendo os critérios (preventivos, recomendados pela Organização Mundial da Saúde), é desnecessário o lockdown”, pontua.

Já a social media Illa Mayra, 23, é a favor da providência. Ela, que é do grupo de risco, afirma: “Eu sou a favor do lockdown. Faz um ano desde o primeiro caso no país e estamos piores do que nunca. Conter o avanço do vírus é a melhor forma de combate e para isso, precisamos de distanciamento, precisamos ficar em casa. Precisamos dessa medida. Mas apesar disso, não podemos esquecer que para que haja um isolamento justo e eficaz são necessárias medidas governamentais para assegurar a sobrevivência das pessoas que precisam do comércio, da rua, do movimento para sobreviver. Tem que ter e deve haver medidas que assegurem às pessoas essa possibilidade”, finaliza.

Enquanto isso, a situação na política tocantinense é de desentendimentos: o governador do Tocantins, Mauro Carlesse (DEM), divulgou um vídeo nas redes sociais em que acusa a prefeita de Palmas de má vontade em gerir a crise: “Às vezes, eu fico muito triste de ver algumas matérias saindo em jornais, o pouco esforço que tem feito a nossa prefeita de Palmas (…), colocar na mídia que está colocando doze leitos de estabilização é muito pouco para a capital. O governo está colocando leitos de UTI, leitos de estabilização, ajudando em todos os sentidos para passarmos por essa fase tão difícil (…), recurso tem, o que precisa é boa vontade. Obrigado a todos”, finaliza. 

A prefeita, por sua vez, publicou uma imagem que destaca o aumento de casos de contaminação no Tocantins em sua conta de uma rede social com a seguinte mensagem: “Neste momento reunida com toda equipe de trabalho para análise situacional do COE. Momentos de crise exigem posições firmes. Inevitável que medidas mais restritivas são necessárias, e elas virão. A Casa Civil já trabalha na edição do novo decreto. Não vamos esperar!”. 

Ao passo que o país se encaminha para um colapso, medidas precisarão ser tomadas para garantir a segurança de todos e evitar que esse vírus (e suas variantes) não se proliferem ainda mais. Num momento tão delicado, políticas públicas devem garantir que o processo de vacinação (que é considerado lento no país e, principalmente, no Tocantins) ocorra em massa, além de certificar a segurança da população — esta, por sua vez, também tem um papel a desempenhar, que é o de seguir as recomendações de segurança para garantir a proteção própria e das pessoas que estejam próximas —. Todos os órgãos responsáveis devem atuar em prol do restabelecimento da saúde nacional, e garantir que todos estejam seguros para sair desta situação com o mínimo dano possível. 

Revisão por Ivan Trindade

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *